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segunda-feira, 14 de junho de 1999

A MÃO DE DEUS







/EM POVOA DE LANHOSO/

A MÃO DE DEUS



 
Finalmente o sol de verão.

No alto da vila, vivia na quinta de uma senhora “beata” e de uma gata falsa de estimação, que de tempos a tempos ficava estranhamente assanhada, o pêlo eriçado como um ouriço-cacheiro e umas garras de unhas curvas como ameaça, dando saltos e gritos estridentes mal me viam passar à sua caça.

Tinha um curral com porcos, capoeira com galos e galinhas, uma casa de rede com frangos e patos soltos, perus e pombas cheia de aves pequeninas, que mais parecia um zoológico cheio de cabras e borregos e ovelhas pisando a caca, e até um saguim - macaquinho de África e todos os animais domésticos que havia… parecia que vinham desembarcados da arca de Noé.

Eu acompanhava e ajudava maravilhado à alimentação daqueles animais e seguia a senhora para todo o lado… e para a igreja do senhor padre em oração.
À tarde, com outros miúdos da minha idade, me levou um dia à casa do Senhor para aprender todos os actos, rezas e contrições do pastor.
E não é que eu me pus a dizer e a cantar padre nossos, ave-marias e todas as rezas da missa sem ver… nem ninguém me ensinar...?

As pessoas exactas daquele meio, o senhor prior e as senhoras beatas que nos contavam histórias de amar, entre si olhavam com grande admiração e uma adoração de para mim olharem.
Como era possível acontecer?
Alguém tão pequeno e que nem sequer ainda sabia ler, saber todas as palavras de amor do homem que andava em cima do mar…?

A verdade, é que sentia algo meu, belo e inocente como se tivesse Deus dentro do “eu”, da minha mente. Olhava para a natureza como se visse a primeira maravilha do mundo, adorava o entardecer das tardes pelo ouro do sol amarelo e amava a incandescente luz do sol poente raiar, o momento do dia em que a estrela de calor se põe no horizonte e a luz do sol na meia-noite me punha a sonhar…

Eu, adorava aquela terra, e os milagres sonhavam e aconteciam dentro do meu ser como se fora abençoado… o mundo era o meu amor de criança, amar e ser amado.














segunda-feira, 10 de maio de 1999

GARRAFA DE CHOCOLATE





/EM OLIVEIRA DE AZEMEIS/

GARRAFA DE CHOCOLATE




Não sei porquê… guardo na memória a imagem duma torre com um relógio que me faz lembrar o “Clock Tower” presente, torre com uma parede amarela de cimento e areia, pintada de fresco recentemente, fazendo lembrar um edifício alto, estreito e fortificado como uma fortaleza, embora tantos anos passados não saiba se foi sonho ou realidade ou sonho na realidade… /castelos, damas e cavaleiros de armas./

Ruas largas onde se podia andar à vontade cheia de árvores, porque passava um motor com rodas pesadas, uma pasteleira ou uma carroça de carga atulhada, numa outra dimensão numa rua fantasma com um banco sozinho.

Não sei porquê… talvez, porque no sítio onde morava, descia umas escadas de pedra com degraus certos e os muros de lados coloridos bonitos, descendo direitos em ziguezagues na vertical, e ao fundo virando para o passeio da esquerda, eu seguia em frente de mão dada à leitaria da esquina, para beber minha garrafa de chocolate que eu tanto gostava e da impaciência que levava, mal podia esperar o momento.

Não sei porquê… ao sair, lembro-me apenas da rua larga, as mãos quentes de minha mãe, o sol e o sabor fresco do chocolate…
E isto foi realidade, por minha única vontade alterada no tempo, porque agora ao beber outra garrafa de chocolate, recordo o tempo certo na leitaria da rua larga, do tempo antigo que eram tempos do tempo agora moderno, do último dia sempre o primeiro.

Não sei porquê… foram poucos meses passados com a minha idade pequena, muita coisa não deu para recordar, talvez se um dia lá voltar…

Por enquanto, metade é sonhar na realidade doutros sonhos, outra metade é viver no âmago da minha essência, da pureza de meus sentimentos, e outros são inteiros fora de alma, partes incertas de fracas paragens quando me vou daqui embora, e regresso a mim, àquilo que sou, ao meu íntimo como um feto em gestação, ao lugar que mais gosto, à minha posição… ao bater do sentir meu coração.















segunda-feira, 12 de abril de 1999

FARINHA AMPARO






/EM ESTARREJA/

FARINHA AMPARO


Há quem se lembre ainda da farinha 33 e tenha provado esta delícia?

Recordo os brindes com uma ansiedade, que mal podia conter desejos ao inventar meus mundos… dava tantos beijos para fabricar amor sem precisar de Deus na Terra, que era eu Zeus, rei estátua na perfeição.

… Havia galinhas que punham ovos e soldadinhos que marchavam e davam tirinhos, camionetas com atrelados e helicópteros que paravam no ar sozinhos… navios que mareavam em cima do tapete do meu quarto como se ondas o tivessem atravessado, havia romances de bonecos, namoro entre homens e mulheres transformados em corações de carne e amor de apaixonados.

Havia a Terra, a lua, o sol e o mar todos com gravidade, suportados por mim e manuseados com muito cuidado para não alterar o estado e a forma como foram criados, senão acabaria o mundo aqui…
Eu não podia interferir nos seus mundos, queria amá-los com paixão os amores que o amor de uma criança ama, com a inocência da idade, porque é puro e tem tudo um pouco de Deus imaculado e sem pecado, ascendentes que nem o homem há-de conseguir obter.

O amor faz mover tudo e só uma criança pode ter todo o amor que há no mundo, ele é um deus profundo e tem todas as estrelas do Universo no coração, porque ele ama tudo em tamanho gigante e não é disperso nem tem a acidez do limão …







segunda-feira, 8 de março de 1999

O FUNERAL




/EM GOUVEIA/

O FUNERAL




Dentro de uma pequena igreja… assisti bem pertinho pela primeira vez, tal era a minha curiosidade, como era estar deitado dentro de um caixote bem trajado, fato preto e gravata, mãos cruzadas.

Pareceu-me ver as sobrancelhas tremer, os lábios querendo descerrar… ouvia alguém a gritar, mas o homem que dormia nem sinal de acordar. Ao aproximar meu rosto, o dele me parecia bem vivo, o meu da cor do falecido que o cheiro nauseabundo me causava, e no cérebro o grito, eco repetido – a voz do morto vivo.

Repugnante, confuso, fugia como podia, porque minha conclusão não tem atitude que sirva, com a idade de poucos anos numa mente em carga e olhos raio-X cheios de marcas.

 Se escutar consigo… causa tamanha desconheço, ver e ouvir… dá apenas para fugir.
E nunca mais quero ver assim moribundo, num caixote de madeira vestido naquele sobretudo… tal defunto.