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segunda-feira, 8 de março de 1999

O FUNERAL




/EM GOUVEIA/

O FUNERAL




Dentro de uma pequena igreja… assisti bem pertinho pela primeira vez, tal era a minha curiosidade, como era estar deitado dentro de um caixote bem trajado, fato preto e gravata, mãos cruzadas.

Pareceu-me ver as sobrancelhas tremer, os lábios querendo descerrar… ouvia alguém a gritar, mas o homem que dormia nem sinal de acordar. Ao aproximar meu rosto, o dele me parecia bem vivo, o meu da cor do falecido que o cheiro nauseabundo me causava, e no cérebro o grito, eco repetido – a voz do morto vivo.

Repugnante, confuso, fugia como podia, porque minha conclusão não tem atitude que sirva, com a idade de poucos anos numa mente em carga e olhos raio-X cheios de marcas.

 Se escutar consigo… causa tamanha desconheço, ver e ouvir… dá apenas para fugir.
E nunca mais quero ver assim moribundo, num caixote de madeira vestido naquele sobretudo… tal defunto.










segunda-feira, 8 de fevereiro de 1999

JARDIM-DE-INFÂNCIA






/EM GOUVEIA/

JARDIM-DE-INFÂNCIA





Pensamentos ficam e outros vão, mas a mente humana de ideias e mistérios é como uma caixinha de surpresas.
Os muitos anos passam, mas quando falamos num sítio, logo vêm à memória imagens de lugares furtivos em recônditos e profundos entraves… que nos parecem estranhos e desconhecidos.

Assim é, igualmente situada numa das encostas da Serra com pedra trabalhada pela natureza, onde correm nascentes de água pura, fauna e flora da montanha…
Ruas estreitas com pedra da calçada numa descida...

Entre outras duas ruas um café com televisão sem cores, uma avenida extensa com espaço quase descampado, e um largo que parecia uma pista de aterragem rodeada de flores.
Em cima, uma igreja com duas torres e uma capela com vista para a vila. Um dos lados cheio de árvores muito altas, do outro, um jardim cheio de plantas e um tapete enorme de relva, e dentro do próprio recinto plantado, um jardim-de-infância.

Lá dentro, os gritos de alegria de crianças como eu, a excitação e o prazer de andar de baloiço, voando com imaginação da realidade, levado nas asas do vento em pleno voo, e naquele momento até se acredita que se levanta como um pássaro de asas gigantes, o mundo não tem chão… e o baloiço parece um avião.

E nos escorregas o trampolim, um trajecto do céu deslizando na pista de areia derrapando pés, ou uma queda desastrada virado ao contrário no areal do chão transformada em cambalhota.
Por ser tão bom viver ao saltar, vai-se logo a correr para repetir… senão houver trambolhão, não é giro de se ver nem gostar ao sentir que é tão bom ser trapalhão.

Em pleno contraste aquele jardim tinha uma imperfeição.
Ali perto, o cemitério de moradias com olhares na espera duma aparição… lugar de algo sinistro, mas não sei se há algo na saída com medo dos papões.

Sei apenas que se ia por uma avenida e na altura se falava, quando se ouvia uma coruja ou um som dum vento mais barulhento, a fuga para baixo dos lençóis, com medo das almas penadas ou até mesmo de fantasmas, porque quando se vive na idade do pavor e da fantasia, qualquer som é um horror e a vida não é vida… é um filme de terror.

Não se deve pisar aquela terra de bichos e aparições naquelas idades…
Senão não é como a terra do meu jardim, sem urnas e tabuletas cruzadas e agoiros de aves curvadas e olhos fixos… suspensa respiração dos aflitos.






segunda-feira, 11 de janeiro de 1999

O MATADOURO




VIEIRA DO MINHO


O MATADOURO



 *



O BOI


Perto de minha casa havia um matadouro.
Um boi era içado no ar envolto numas grandes cordas.
Um homem subia umas escadas com uma marreta nas mãos para dar com ela na cabeça do bicho, até o conseguir matar.  

Era aberto ao meio com uma lâmina bem afiada e tiravam-lhe as entranhas fumegantes cheias de odores, por ainda se encontrar quente e de se estar em pleno inverno.

O que aquele animal sofria, só ele conseguia traduzir em urros horríveis, pelos ossos da cabeça esmigalhados, uns olhos loucos de espanto, esbugalhados, querendo saltar das órbitas para fora… sofredores de uma mórbida e lenta agonia.




O PORCO



Da matança do porco, não gostava de assistir pelo barulho ensurdecedor que fazia ao ser espetado o facalhão abaixo do focinho, e consequentemente permanecia num transe hipnotizado… o eco de um grito horrendo não humano, que embora não pronuncie a voz dos homens, entende todas as línguas, e é desumano. 

O gume do aço penetrando o fosso abaixo do garrote, perfurando a veia jugular tirando-lhe o último sopro de ar… porque queria o homem sangrá-lo até à morte? 

Ainda tenta compreender o que não consegue perceber… porque ao dar o último suspiro, ninguém o avisara que era este o seu destino, segundos de inferno num lugar maldito, dum inimigo incerto que toda a vida foi seu amigo. 













segunda-feira, 7 de dezembro de 1998

AS ABELHAS




/EM TÁBUA (meus 5 anos)/

AS ABELHAS




/A amizade tem destas…
E outras coisas com bolor.
Para não arrefecer o amor?
Umas santas picadelas. /




Perto da casa, havia um poço com água que eu tirava com muito cuidado, porque em baixo existia uma colmeia, e não podia haver descuidos.
Tantos dias, a confiança aumentava e já o fazia com a experiência repetida dos actos, quase de olhos fechados…
As abelhinhas já não estranhavam, habituadas às descidas do balde com água fresquinha e até aproveitavam para bebericarem nas subidas, aumentando o número delas à passagem da sua toca como que um aviso…

Aqueles aviõezinhos de amarelos tão belos, para baixo e para cima, em dias de sol prazenteiro numa azáfama quotidiana sem rebuliços, davam prazer ao meu coraçãozinho, como se fizessem parte do amor familiar e os tratasse como irmãozitos…

Enquanto as observava, ia apanhar amoras silvestres, passatempo favorito com que a quinta me presenteava, e comer tantas amoras pretas quantas pudesse, por serem suculentas e doces, e eu, um grande guloso… e uma abelha ou outra em sintonia copiava meus gestos na grande gulodice…
...

Um dia, correndo pela chácara, andava eu a brincar com uma borboleta e um gafanhoto há um bom bocado, quando o calor da tarde de Julho me fez sentir a sede que havia dentro de mim, beber aquela água fresquinha que estava no fundo do poço… mesmo ali.

Minha mãe, na sombra do primeiro andar da casa, ao lado da porta da garagem, lavava à mão a roupa num tanque de pedra e cimento.

Peguei no balde que estava atado a uma corda, pendurada numa trave em cima, no meio do poço, e como era costume, comecei lentamente a descer e ao chegar ao fundo dei um jeito, senti o peso, e com mil cuidados ao passar na zona da colmeia continuei a subir…

já tinha passado a zona de perigo e respirado bem fundo, quando eis senão, um moscardo enorme me poisou no nariz.
Acto contínuo num reflexo impensável, gritei, tentei com o instinto da mão direita sacudir o insecto e com êxito atingi também a colmeia.

Largando tudo, nem olhei… comecei a correr na direcção da minha mãe aos gritos com o enxame atrás de mim, que ao ver aquilo se fechou na garagem comigo.

Levámos algumas picadelas, mas nada que um pouco de azeite quente não ajudasse a minorar as dores, e o susto… o enxame ficara praticamente todo lá fora.

A vida continuou no seu ritmo normal, mas à tardinha vi com tristeza meu pai queimar a colmeia, apesar das dores que ainda sentia… parecia que o lume estava dentro de mim, e os inchaços na pele, resultado do fogo e o coração chamuscado, vazio, por nunca mais ver as minhas amarelinhas abelhinhas.