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segunda-feira, 8 de junho de 1998
segunda-feira, 11 de maio de 1998
FOSSA DE ÁGUA
CONDEIXA
FOSSA
DE ÁGUA
Caí lá dentro da fossa (4 anos) e quando estava prestes a desaparecer, fui salvo
porque alguém tinha aberto a porta nesse exacto momento – a outra porta.
Dei uma espécie de andamento, senti o vácuo e um frio, e o outro pé ao
mesmo tempo sem tino, caí direito em sentido, não esbocei nenhum movimento e se
tinha senso não dei por nada, não sabia o que me tinha acontecido, não chorei e
até achei graça por os olhos deixarem de ver, e o nariz achei tapado, a beber
lodo e água choca da poça.
Foram uns segundos sem respirar, pareceram-me uma eternidade… então vi trombetas que sobressaíam das conchas do mar como um milagre, vi anjos albinos tocar harpa num som celestial, peixes a dançar, um carro submarino sem rodas e a hélice a rodar, puxando um bando de anões que davam saltos engraçados com suas badanas coloridas, e a pequena sereia num trono a ouro dourados, à espera de ser humana um dia.
Lembro-me que estava a sorrir por ver aqueles bonecos de cabelos bem penteados, rostos coloridos, bota de jogral e penacho de plumas… /estendi o braço, queria me juntar./
Puxaram-me, fiquei no ar cá fora, aborrecido por o meu espírito deserto… no sonho sem sentidos - acabar.
Foram uns segundos sem respirar, pareceram-me uma eternidade… então vi trombetas que sobressaíam das conchas do mar como um milagre, vi anjos albinos tocar harpa num som celestial, peixes a dançar, um carro submarino sem rodas e a hélice a rodar, puxando um bando de anões que davam saltos engraçados com suas badanas coloridas, e a pequena sereia num trono a ouro dourados, à espera de ser humana um dia.
Lembro-me que estava a sorrir por ver aqueles bonecos de cabelos bem penteados, rostos coloridos, bota de jogral e penacho de plumas… /estendi o braço, queria me juntar./
Puxaram-me, fiquei no ar cá fora, aborrecido por o meu espírito deserto… no sonho sem sentidos - acabar.
segunda-feira, 13 de abril de 1998
RECORDAÇÕES DAS COISAS
ALMEIRIM
RECORDAÇÕES
DAS COISAS
Pois se lá
vivi… foi noutro tempo, de recordações que passaram e em nada de mim ficou
gravado, ou porque as imagens não me deixaram impressões dos gostos do passado,
ou porque minha memória em formação não tenha captado algo que fosse de meu
agrado, a não ser a estrada principal, vislumbre quase imperceptível dum
nevoeiro, a percepção da visão e via-se mal…
Movimento lado a lado, o andar sem comunicação, passos no passeio… passos no passa seguido, as costas e as pernas altas de um homem que levava debaixo do braço o jornal comprimido, braço com sacola de uma mulher perdida, a montra cheia de manequins com vestidos que a mulher queria, e o cruzar dos dois na passadeira, logo daquela maneira.
De um lado a volta, do outro a ida, troca de caminhos de ida e volta inteira. E no trajecto repetido, nas dobras as esquinas, as mesmas lojas e um café na avenida.
E na mesma rua à ida, em sentido contrário vinha o ardina com a banca de jornais, e o carro de duas rodas pregando aos sete ventos os berros do Diário Popular, A Capital, República, Época e Expresso...
E à volta na mesma direcção, sentido contrário do lado da ida, vinha o cauteleiro apregoando os números da sorte, o boné com a mesma estrela e as cautelas penduradas no braço encolhido, gritando a fracção do número inteiro… a sorte daquela semana.
Por não ser
a estrada principal, a visão normal do pouco movimento, um carro de vez em
quando, no outro sentido uma carroça e um cavalo e o condutor com um chicote e
uma correia, uma bicicleta pasteleira da 2ª guerra mundial, e na ultrapassagem
o tinir da buzina duma lambreta prateada, uma furgoneta descarregando material
de caixa aberta para uma loja de electrodomésticos em segunda mão, e por
fim...
Uma criança
com olhos de emoção… ao ver da janela da casa este movimento naquela rua, e que
ainda não sabia os nomes que havia dar àquelas pessoas e veículos em
circulação, a não ser, guardar no coração para poder contar um dia…
segunda-feira, 9 de março de 1998
VIAGEM A COIMBRA
VIAGEM
A COIMBRA
Imagine-se…
até a mim, hoje, me parece quase impossível, fazer aquele trajecto inúmeras
vezes, únicas no sentido, o custar acreditar, sozinho, despreocupado como
sempre dentro do destino.
Agora, era
viagem duma vila, directo à cidade, com quatro anos o revisor ao lado…
apertando minha mão com cuidado, ajudando-me a descer o estrado…
Como eu
adorava andar de autocarro!
Pela
janelinha, olhando sempre para as árvores, as casas, os automóveis na estrada,
alguém a passar… e eu a sonhar como se estivesse a ver um documentário, as
imagens a passar a noventa ou mesmo a cem quilómetros por hora… num cinema
moderno, daqueles dias coloridos com todas as cores da natureza sem preto nem
branco.
Aquilo é que
eu gostava de ir à janela!
Depois, os
olhos de tanto se focarem, ficavam hipnotizados, parecia um sonho em movimento,
o que estava lá fora, e dava a sensação do quieto, teimosamente parado, e eu a
sonhar que o meu corpo voava ao passar pelas coisas das imagens, entre a
vidraça e a imaginação da velocidade…
Era um filme
real sem playbacks nem imagens gravadas, passado ao vivo.
Aquilo era
demasiado belo, para ser verdade.
Aquilo é que
eu gostava de ir à janela!
Ir à cidade…
viajar de autocarro.
Ver o meu
mundo através da vidraça, sonhando que voava…
Mirando
tantos corações, pulsando nas cores arco-íris tão bonitos… o brilho das asas das
aves e borboletas na minha companhia, batendo em sintonia na beleza que é a
natureza.
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