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segunda-feira, 9 de agosto de 1999

A SERPENTE







(SEIA / SERRA DA ESTRELA/ MANTEIGAS)

A SERPENTE




Descia o vale da serra naquela tarde calma de verão, em pressa moderada. 
Minhas imagens velejando ao vento na velocidade da luz… iam e vinham, voltavam atrás, e chegavam antes de lá chegar, pelo meio paravam... retrocediam ao começo da viagem, mal podia esperar, e já antes a tinha inventado nas fantasias de Manteigas com algumas inclinadas beiras, e eu vinha sempre de Seia.

Fazia o percurso em dúzias de viagens pelas mais variadas curvas, pelo caminho da estrada, e de repente – atravessada no pavimento alcatroado, com mais de três metros de dimensão, passámos por cima do gigante bicho, que sem querer não era esperado, ficou com a cabeça esmagada, pelas rodas do camião.

Parámos mais à frente, recuámos, fomos ver o animal, mas nada havia a fazer, devia estar a morrer com falta de água, e por estar a delirar nada fez para se desviar…
Devia estar a sonhar com o mais belo lago, que havia na sua miragem, nos pensamentos de olhos turvos, do calor imenso daquela tarde que criava espelhos no asfalto com imagens mirabolantes, e a temperatura elevada levantava através da estrada de alcatrão, as figuras e histórias que eu sonhava…
Fiquei triste com o acontecimento daquela serpente… 

Era como se faltasse qualquer coisa nas paisagens daquela serra, e tudo que lá estava, eu amava como se fizesse parte da inóspita e acidentada terra… 
Como alguém de família desamparada nos deixasse pelo viver destas silvas, o dia que não pode passar sem a hora marcada, para além da vida e da morte… o destino.






segunda-feira, 12 de julho de 1999

“REVISTA “AOS QUADRADINHOS”




/EM LEIRIA/


REVISTA “AOS QUADRADINHOS”





Era tarde de verão… de calções e sandálias, caminhava com um chupa-chupa na mão com sabor a limões. 
À porta duma papelaria, olhava maravilhado para os livros de banda desenhada pendurados, não tinha uma moeda sequer de entrada.
Peguei num, desfolhando as folhas, espreitando o empregado pelo canto do olho, com o balcão cheio de pessoas.
Todo eu tremia por dentro, com um fogo que me consumia.
Não sabia se tinha coragem e talento para fugir… o desejo era tanto ir, mas os pés colados ao chão não queriam seguir viagem, e meu olhar vivo, disfarçado dum lado para um e outro, seguiam o funcionário e o livro…

Estava prestes a correr, quando de repente... seu olhar entrou no meu de frente. Senti um tiro cá dentro da fronha e pensei que ia morrer de vergonha… 

Todo a tremer, coloquei a brochura aos quadradinhos no sítio sem ver, de pernas para o ar sob olhar do indivíduo furioso; senti um ardor no miolo e um pingo de mijo saindo pelo escroto. 

Abanou a cabeça, com as mãos nas ancas me desafiando…
Eu entendi com tristeza, sem tirar os olhinhos das bancas e do marmanjo, endireitando os “quadradinhos”. 

Desta vez mexeu o rosto de cima para baixo, como a dizer que desta vez escapo; e já mais descontraído com outro cliente e um sorriso – foi uma fracção de segundo… ele ficou distraído, e eu arranquei amarrotando o rosto do Tio Patinhas e aquele ouro todo… fujo.
Como uma seta fui parar à esplanada do jardim.
Ainda o ouvi a gritar, mas nunca mais me pôs a vista em cima. 

Nem a mim, nem à revista.















segunda-feira, 14 de junho de 1999

A MÃO DE DEUS







/EM POVOA DE LANHOSO/

A MÃO DE DEUS



 
Finalmente o sol de verão.

No alto da vila, vivia na quinta de uma senhora “beata” e de uma gata falsa de estimação, que de tempos a tempos ficava estranhamente assanhada, o pêlo eriçado como um ouriço-cacheiro e umas garras de unhas curvas como ameaça, dando saltos e gritos estridentes mal me viam passar à sua caça.

Tinha um curral com porcos, capoeira com galos e galinhas, uma casa de rede com frangos e patos soltos, perus e pombas cheia de aves pequeninas, que mais parecia um zoológico cheio de cabras e borregos e ovelhas pisando a caca, e até um saguim - macaquinho de África e todos os animais domésticos que havia… parecia que vinham desembarcados da arca de Noé.

Eu acompanhava e ajudava maravilhado à alimentação daqueles animais e seguia a senhora para todo o lado… e para a igreja do senhor padre em oração.
À tarde, com outros miúdos da minha idade, me levou um dia à casa do Senhor para aprender todos os actos, rezas e contrições do pastor.
E não é que eu me pus a dizer e a cantar padre nossos, ave-marias e todas as rezas da missa sem ver… nem ninguém me ensinar...?

As pessoas exactas daquele meio, o senhor prior e as senhoras beatas que nos contavam histórias de amar, entre si olhavam com grande admiração e uma adoração de para mim olharem.
Como era possível acontecer?
Alguém tão pequeno e que nem sequer ainda sabia ler, saber todas as palavras de amor do homem que andava em cima do mar…?

A verdade, é que sentia algo meu, belo e inocente como se tivesse Deus dentro do “eu”, da minha mente. Olhava para a natureza como se visse a primeira maravilha do mundo, adorava o entardecer das tardes pelo ouro do sol amarelo e amava a incandescente luz do sol poente raiar, o momento do dia em que a estrela de calor se põe no horizonte e a luz do sol na meia-noite me punha a sonhar…

Eu, adorava aquela terra, e os milagres sonhavam e aconteciam dentro do meu ser como se fora abençoado… o mundo era o meu amor de criança, amar e ser amado.














segunda-feira, 10 de maio de 1999

GARRAFA DE CHOCOLATE





/EM OLIVEIRA DE AZEMEIS/

GARRAFA DE CHOCOLATE




Não sei porquê… guardo na memória a imagem duma torre com um relógio que me faz lembrar o “Clock Tower” presente, torre com uma parede amarela de cimento e areia, pintada de fresco recentemente, fazendo lembrar um edifício alto, estreito e fortificado como uma fortaleza, embora tantos anos passados não saiba se foi sonho ou realidade ou sonho na realidade… /castelos, damas e cavaleiros de armas./

Ruas largas onde se podia andar à vontade cheia de árvores, porque passava um motor com rodas pesadas, uma pasteleira ou uma carroça de carga atulhada, numa outra dimensão numa rua fantasma com um banco sozinho.

Não sei porquê… talvez, porque no sítio onde morava, descia umas escadas de pedra com degraus certos e os muros de lados coloridos bonitos, descendo direitos em ziguezagues na vertical, e ao fundo virando para o passeio da esquerda, eu seguia em frente de mão dada à leitaria da esquina, para beber minha garrafa de chocolate que eu tanto gostava e da impaciência que levava, mal podia esperar o momento.

Não sei porquê… ao sair, lembro-me apenas da rua larga, as mãos quentes de minha mãe, o sol e o sabor fresco do chocolate…
E isto foi realidade, por minha única vontade alterada no tempo, porque agora ao beber outra garrafa de chocolate, recordo o tempo certo na leitaria da rua larga, do tempo antigo que eram tempos do tempo agora moderno, do último dia sempre o primeiro.

Não sei porquê… foram poucos meses passados com a minha idade pequena, muita coisa não deu para recordar, talvez se um dia lá voltar…

Por enquanto, metade é sonhar na realidade doutros sonhos, outra metade é viver no âmago da minha essência, da pureza de meus sentimentos, e outros são inteiros fora de alma, partes incertas de fracas paragens quando me vou daqui embora, e regresso a mim, àquilo que sou, ao meu íntimo como um feto em gestação, ao lugar que mais gosto, à minha posição… ao bater do sentir meu coração.