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segunda-feira, 15 de maio de 2000

A ESPERA


/ Colégio Nun'Àlvares em Tomar/




A ESPERA


 
Alguém sabe o que é sair de casa com 11 primaveras para ir estudar num colégio interno, vivendo mil esperas, ficar enclausurado durante outros cinco anos, viver numa prisão que é o inferno?
Vivemos o tempo como se fora dos moiros fechados num castelo, alimentados com arroz e porrada… tendo a espada como martelo e a dureza de ser caloiro, andando com uma coroa e os espinhos de um judas mal amado.

Ficamos por nossa conta… sobreviver à sombra de quem é mais forte, sonhamos vir embora a toda a hora à espera de uma qualquer sorte, que nos batam à porta… caramba!

Como uma espécie de lotaria sem engano, noite e dia durante a semana, todo o ano.
Somos possuídos de uma tal coragem que nós próprios ficamos admirados com tanto sangue frio, uma revolta interior que parece adormecida… produto da violência que nos moldou, um coração gélido e duro mas não insensível, se a parte intocável que há dentro de nós não se quebrar…

Espero a hora do recreio, o fim da aula, a hora de jantar, horas incontáveis, esperas intermináveis, a hora de dormir, sonhar… acordar em casa.





segunda-feira, 10 de abril de 2000

RECREIO


/Cinco anos passados no Colégio Nun'Àlvares, Tomar, dos 11 aos 16 anos/




RECREIO




Um cantinho… um encanto de lugar, um agasalho do vento não menos que um abrigo, um retiro com olhar para o céu, o cantinho do nosso refúgio…

As recordações…
Por ser o nosso convento, esconderijo das nossas memórias, das saudades do nosso tempo, das tristezas e alegrias… o cantinho do nosso lugar.

Por ser a protecção dos nossos pensamentos, sem leis que nos prendam ou impeçam de sonhar, por ser um cantinho tão pequeno onde cabem todas as estrelas e água do mar.

Porque não somos fugitivos de nada, precisamos do nosso espaço, pensar nos dias que passam, recolher ao nosso mundo para nos sentirmos livres como o oceano e a Terra no ar.














segunda-feira, 13 de março de 2000

COLÉGIO INTERNO





/Cinco anos passados como Interno no Colégio Nun'Àlvares/




COLÉGIO INTERNO




Se transformarmos cinco anos em 60 meses, 1825 dias, 43 mil e 800 horas, 2 milhões e 628 mil minutos, 157 milhões e 680 mil segundos… o nosso tempo tem milhões e embora dele faça parte o milésimo, ocorrem milhentas coisas no segundo do mundo.

Cerca de mil alunos…

Era um mar de espécies e raças vividos com o contacto do dia-a-dia, experiências, histórias, vidas de África e outras ilhas, uma humanidade tão rica e diversificada dentro de uma prisão planetária, com a finalidade de aprenderem a ser homenzinhos num mundo melhor e se tornarem livres.

Mas como era isso possível na actualidade, se no tempo era ditadura, não havia liberdade e o futuro era um facho, uma mão no alto e uma falsa pintura…

Nunca me adaptei, e saudade é coisa que não sei, nem tão pouco repetir se voltasse atrás, renovar a idade, ninguém me convence, mesmo que prometessem que eu ia viver em paz, e voltaria a liberdade de quem sente, como Fernão Mentes Minto.














segunda-feira, 14 de fevereiro de 2000

LEITÃO






/NA MEALHADA/

LEITÃO



Casa na estrada, estrada nas casas...
Aqui, também morava na via pública, tal e qual a rua de um bairro com casas do lado e outro lado das casas, com uma pequena relva entre elas, e o movimento de carros e motas…
Algumas camionetas não ofereciam perigo, havia o jardim… e a rua era larga dos lados, embora um pouco tortas.

Havia o restaurante do mesmo lado, quando escapava de casa e seguia os carreiros do relvado, ia ver o dono à tardinha, cá fora, assar no espeto o leitãozinho de leite, rodando devagarinho o bichinho com todos os condimentos… besuntado de molhos até ficar tostadinho, deixando o gosto tremendo, do crescer água na boca.

Era muito amigo de meu pai, todos os fins-de-semana lhe dava um bom pedaço de leitão, e à mesa nunca comi coisa tão boa, tão gostosa, com todos os paladares do céu e da Terra, o verdadeiro manjar dos “Neves”, a companhia na família dos leitões.